O que você precisa saber sobre o sexto relatório de avaliação das condições climáticas globais do IPCC

O que você precisa saber sobre o sexto relatório de avaliação das condições climáticas globais do IPCC

 

O final do mês de fevereiro foi marcado pelo lançamento do sexto relatório de avaliação das condições climáticas globais do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), intitulado Climate Changes 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability (Mudanças Climáticas 2022: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade). A versão final foi aprovada no dia 27/02 e seus resultados espantaram ativistas, cientistas, pesquisadores, acadêmicos e mais.

 

“Este relatório é um alerta terrível sobre as consequências da inação”, afirmou Hoesung Lee, presidente do IPCC.

 

Segundo o relatório, a humanidade está inequivocamente aquecendo o planeta, o que, em troca, tem causado transformações ambientais rápidas e duradouras em todas as regiões do globo.

 

 

Um oceano de impactos e vulnerabilidades

 

O terceiro capítulo do relatório, denominado “Ocean and coastal ecosystems and their services” (Ecossistemas oceânicos e costeiros e seus serviços), traz uma avaliação global dos impactos das mudanças climáticas no oceano e os riscos para os seus ecossistemas e serviços. Algumas opções de adaptação das indústrias e outras atividades marítimas, a fim de mitigar os riscos, também são propostas neste capítulo.

 

Após análises de dados, estudos de laboratórios e observações do oceano que atravessaram décadas, o relatório concluiu que houve mudanças em características fundamentais das águas salgadas, tanto física quanto quimicamente, nos últimos anos. Estes estudos prestaram evidências para o impacto dessas mudanças em diversos âmbitos do mar, tais como alterações no tempo de atividades sazonais e na distribuição e abundância de organismos marinhos em todas as regiões do planeta.

 

Outro ponto tributável às ações antropogênicas são as ondas de calor marinhas. O relatório revelou que o aumento da frequência, duração e intensidade destes fenômenos contém dados que sustentam sua associação às mudanças climáticas causadas pela humanidade desde, ao menos, 2006. Como resultado, diversas áreas oceânicas têm passado por perdas massivas de organismos – um prejuízo que, ao que tudo indica, pode ser duradouro. Na costa oriental da Austrália, por exemplo, mudanças abruptas na biodiversidade local, associada à perda de organismos formadores de habitat (que, assim, protegem a costa), foram documentadas de 2015 a 2016, de 2016 a 2017 e em 2020.

 

Com o aquecimento, a eutrofização torna-se mais intensa, o que muitas vezes leva à diminuição dos níveis de oxigênio da água. Desse modo, há o surgimento das denominadas “zonas mortas” – áreas onde há baixas taxas de vida. Ações antropogênicas, como a sobrepesca e urbanização das faixas litorâneas, aumentam o estresse já presente em ecossistemas fragilizados. Como alguns dos principais afetados, podem-se citar os predadores de topo de cadeia alimentar, praias arenosas, pântanos salgados e manguezais.

 

 

Preservar o oceano é preservar o futuro

 

No que concerne às projeções do relatório, as notícias permanecem desanimadoras. Mesmo que o aumento da temperatura do planeta (em comparação aos níveis pré-industriais) seja mantido abaixo dos 2°C até o final do século, prevê-se que as taxas de biodiversidade marinha, sobretudo em regiões como as próximas ao equador e no oceano profundo do Ártico, mantenham-se em declínio.

 

O aumento do nível do mar configura uma das principais preocupações dos cientistas no momento. Afinal, os dados mencionados por Robert Kopp, um dos autores do terceiro capítulo do relatório, não deixam dúvidas: “O nível global do mar tem subido a uma taxa acelerada desde 1970 e, no último século, aumentou mais do que em qualquer outro em pelo menos 3000 anos”. Nos anos desde o relatório de 2013, a perda acelerada da camada de gelo tornou-se ainda mais evidente.

 

Em um cenário onde a humanidade falha em manter o aumento da temperatura do planeta nos 2°C (ou abaixo), as projeções afirmam que haverá uma rápida escalada de riscos de extinção em massa e de colapso de ecossistemas. E mesmo que o aquecimento global fique abaixo de 1.5°C (dentro do segundo melhor cenário proposto pelo IPCC, o SSP1-2.6), o relatório aponta que certos ambientes, sobretudo os recifes de coral, ainda assim irão passar por mudanças irreversíveis. Os recifes de coral encontram-se sob alto risco de um declínio generalizado até 2050 graças ao aumento da intensidade, frequência e duração das ondas de calor marinhas e por não conseguirem acompanhar o aumento do nível do mar. Sem a proteção destes organismos formadores de habitat, as faixas litorâneas tornam-se vulneráveis à sedimentação.

 

Em meio a tantas mudanças no ambiente marinho e, consequentemente, na biodiversidade originária, a humanidade não poderá contar com os produtos e serviços fornecidos pelo mar da mesma forma e, muito menos, na mesma intensidade. Desse modo, os impactos sentidos nas comunidades dependerão das condições locais, sociais e econômicas de cada indivíduo. Para as pescarias com maior aporte tecnológico e maior capacidade de mobilidade (capazes de diversificar e aumentar o montante de capturas), a vulnerabilidade será menor. Entretanto, para povos indígenas que dependem do mar, por exemplo, os riscos de perda de patrimônio cultural e de nutrição tradicional serão mais altos. Comunidades dependentes de frutos do mar estarão mais sujeitas à exposição a toxinas e contaminantes, ao passo que as sociedades costeiras enfrentarão a salinização de suas águas subterrâneas (o que pode afetar a agricultura).

 

Muito se pode fazer para reduzir os impactos antropogênicos sobre o oceano, sendo a alfabetização oceânica uma das saídas mais viáveis. As políticas costeiras históricas e o desenvolvimento urbano, no entanto, freiam a possibilidade de mudanças reais.

 

 

Para o mar voltar a estar para peixe

 

No que concerne às soluções, o relatório expõe a discrepância entre as medidas que serão necessárias nos diferentes cenários propostos para o estudo. No caso de uma redução bem-sucedida das taxas de emissão e, portanto, um menor aumento da temperatura global, a gama de adaptações viáveis, eficazes e de baixo custo é grande. A maioria baseia-se em medidas de proteção que permitem que a natureza restaure-se sem a pressão antropogênica, como revegetação, áreas de conservação, sistemas de alerta precoce para possíveis eventos extremos e conscientização ambiental da população.

 

Entretanto, em cenários em que a taxa de emissão atual não é reduzida ou, no pior caso, é aumentada, as ações que terão de ser implementadas não abrem espaço para muito otimismo. Infraestruturas rígidas para a conservação costeira, bem como medidas para a diversificação de meios de vida, realocação de comunidades humanas e evolução assistida de espécies ameaçadas configuram soluções mais complexas e caras, que não têm eficiência assegurada.

 

Em ambos os casos, será fundamental uma adaptação climática transformativa, que reinvente as instituições governamentais e os modelos de negócio, a fim de reduzir as barreiras à tomadas de decisão que promovam o alívio da pressão antropogênica sobre o mar e sobre o meio-ambiente em geral. Caso contrário, a desigualdade entre as regiões globais terá grandes riscos de aumentar, o que, em troca, pode levar a uma exacerbação dos conflitos internacionais acerca da captação de recursos naturais.

 

Afinal, as medidas viáveis disponíveis atualmente são incapazes de promover mudanças significativas no impacto das ações humanas sobre o mar. As atuais áreas marinhas protegidas não são eficazes na proteção dos organismos contra as ondas de calor marinhas e provavelmente serão ainda mais ineficientes frente às condições climáticas de 2050. Faz-se necessário, mais do que nunca, a implementação de ações em escalas apropriadas, combinadas com soluções que visam diminuições ambiciosas dos prejuízos causados aos oceanos. Para tal, é preciso uma governança internacional e multi-nivelar, com recolhimento de dados para previsões sazonais adaptadas às necessidades dos ecossistemas marinhos, colheita sustentável e restauração de habitats.

 

O relatório realça, no entanto, que essas medidas só serão eficazes no cenário atual se aplicadas com urgência e ambição no que diz respeito aos resultados. Com soluções baseadas na natureza, que promovam a inclusão e reconheçam a multidimensionalidade dos impactos das mudanças climáticas e suas interações com outros estressores antropogênicos, pode-se iniciar a mudança necessária hoje para que, no futuro, não olhemos para trás com remorso.

 

Faça download do relatório aqui.

 

 

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