Especialistas comentam o que esperar da indústria de transporte marítimo em 2022 e nos próximos anos

 

Recentemente, o Lloyd’s List – Maritime Intelligence, um dos veículos midiáticos sobre transporte marítimo mais respeitados, realizou o seminário “Lloyd’s List: Outlook 2022 and beyond”. Um seleto grupo de painelistas foi convidado a discutir temas levantados por uma enquete promovida pelo portal, junto de seus leitores, acerca dos fatores que poderiam impactar a indústria no futuro, a curto e longo prazo.

 

Dentre os temas de curto prazo, o destaque foi das perspectivas para o fim da atual crise internacional do “supply chain” (cadeias de suprimentos), ocasionada pela pandemia. Congestionamento de desembarque nos portos, falta de contêineres e inflação do preço do frete são algumas das dificuldades enfrentadas pelo setor no momento.

 

Mais de 60% dos que responderam a enquete têm a percepção de que a crise não terminará este ano, sendo que:

 

  • Quase 12% dos pesquisados (11,7%) acreditam em uma melhora ao longo do período pós-ano novo chinês;
  • 23,9% afirmam que a melhora só deve acontecer após a “peak season” (entre maio e setembro) de 2022; 
  • 55,9% acreditam que isso não acontecerá antes de 2023;
  • 8,5% responderam que não têm perspectiva de ver o fim da crise enquanto ainda estiverem vivos.

 

Os especialistas presentes no evento endossaram a percepção da maioria. À medida que novos portos são fechados na China e as filas de navios ao longo da costa dos EUA e do Mediterrâneo aumentam, esta previsão se confirma.

 

Trata-se de uma crise geral nos mercados de transporte. Em terra, há terminais cheios, escassez de mão de obra e falta de trens, caminhões e armazéns. Com uma parcela expressiva da frota mundial de cargueiros presa em congestionamentos, a capacidade global de transporte marítimo encontra-se sensivelmente reduzida. Para 38,4% dos leitores do Lloyd’s List, essas rupturas nas cadeias logísticas terão reflexos nas perspectivas do setor nos próximos dois anos.

 

Uma preocupação com os impactos da redução da atividade econômica da China no transporte marítimo foi a resposta de outros 30,5% dos que participaram da enquete, ao passo que 21,3% temem um aumento da inflação e apenas 9,8% se preocupam com novas ondas da pandemia.

 

“O que os leitores percebem como o maior risco para a indústria de transporte marítimo nos próximos cinco anos?” foi a pergunta que marcou as previsões a longo prazo. A maioria (45,3%) apontou as incertezas regulatórias, como o prazo para as metas de descarbonização.

 

Na COP26 e na última reunião da Organização Marítima Internacional (IMO), foi sugerida uma alteração na meta de redução das emissões de carbono até 2050, em relação a 2008 – ao invés de reduzir 50%, a meta seria erradicar as emissões por completo, o que não foi aceito. Em meio ao cenário confuso, os armadores não sabem como prosseguir com a encomenda de novos navios, posto que estes têm a vida útil de 25 a 30 anos.

 

Outros 30,2% temem um possível excesso de oferta de capacidade a partir de 2023 e 2024, quando os navios que estão sendo encomendados agora forem colocados no mercado. Mesmo com as incertezas regulatórias, cerca de 695 embarcações foram encomendadas, tanto em resposta ao crescimento da demanda em meio à pandemia quanto para renovação de frota. A capacidade total desses novos navios é de 5,7 milhões de TEUs, o que equivale a cerca de 23,2% da frota mundial.

 

No cenário brasileiro, chama-se atenção para a necessidade de preparação dos portos para o recebimento dos navios de 366m e mais de 12 mil TEUs de capacidade, uma vez que as embarcações de 8 mil a 11,9 mil TEUs, predominantes nos tráfegos de/para o Brasil, representam atualmente apenas 3,3% dos pedidos.

 

Apesar de tudo, Michael Park, Chairman de Shipping e Logística do Citigroup e um dos painelistas, concluiu: “A Covid trouxe uma grande visibilidade ao transporte marítimo e os próximos cinco anos serão o melhor tempo na navegação, com sua contribuição para a contenção das mudanças climáticas”.

 

O portal Portos e Navios alerta para outros fatores relevantes para o setor que não foram considerados na pesquisa:

 

  1. A política de tolerância zero da China com a Covid, que pode levar a novos lockdowns e fechamentos de portos (Beijing’s unwavering zero-Covid policy rattles supply chains);

 

  1. Digitalização: e-quote, e-Booking, e-BL, e-tracking, Smart Port, etc;

 

  1. As novas políticas comerciais de alguns armadores, com limitações de contratos com agentes de carga, estabelecimento de quantidade mínima de carga – MQC aos donos de carga (podendo culminar em pagamento de “frete morto” ou “tarifas spot”) e, sobretudo, maior pressão na venda de soluções integradas (porta-a-porta);

 

  1. Dificuldade dos armadores em movimentarem seus tripulantes, com o aumento de restrições de viagem, impactando na produtividade dos navios;

 

  1. Disputas trabalhistas entre contratantes e trabalhadores portuários na Costa Oeste dos EUA. Os operadores tentaram estender o contrato vigente, mas a proposta foi rejeitada pelo ILA (International Longshoremen’s Association). Isso traz a lembrança da catastrófica negociação de 2014/15 que paralisou operações e criou um grande congestionamento ao longo da costa norte americana e, diante da atual crise logística, um movimento desses poderia piorar ainda mais a situação, com reflexos para o mundo todo.

 

Fonte: Portos e Navios

 

 

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