Crise de financiamento oceânico – Por que precisamos investir mais no oceano?

 

A última descoberta extraordinária no oceano foi o impressionante recife de coral encontrado na costa do Taiti (ilha da Polinésia Francesa) por uma equipe de pesquisadores marinhos. Sua grande extensão (3 quilômetros de extensão e cerca de 65 metros de largura), perfeito estado de conservação (um dos recifes mais saudáveis do mundo reconhecidos até o momento) e a profundidade em que se localiza (de 30 a 65 metros abaixo da superfície) foram os pontos que chamaram a atenção de toda a comunidade científica oceânica.

 

Essa descoberta tardia trouxe à tona o pouco investimento na exploração oceânica. Afinal, tendo em vista que cerca de um quarto de toda a população marinha vive dentro e no entorno de recifes de coral, como um organismo tão extenso e tão indispensável não foi descoberto antes?

 

A resposta encontra-se no absurdo subfinanciamento da pesquisa e do desenvolvimento sustentável em ambiente marítimo ao redor do mundo. Mesmo cobrindo mais da metade do planeta, grande parte do mar permanece invisível aos olhos humanos – não só por localizar-se majoritariamente fora da jurisdição nacional dos países, mas também por ser tão assustadoramente vasto que, para seres como nós, torna-se difícil imaginá-lo como algo que está sob pressão e carece de cuidado. Por centenas de anos, o oceano foi considerado fonte inesgotável de recursos. E, hoje, as sociedades em geral ainda têm de encontrar uma nova forma de enxergar o mar.

 

 

O subfinanciamento marinho em números

 

Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), as economias oceânicas valem US$ 3 a 6 trilhões por ano e sustentam 350 milhões de empregos em todo o mundo. Contando com serviços indiretos fornecidos pelo mar, tais como alimentação, geração de água limpa, regulação da temperatura, energia, armazenamento de carbono e muito mais, soma-se mais U$ 30 bilhões à força econômica que as águas salgadas representam mundialmente.

 

Entretanto, o total investido no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 (ODS 14), relativo ao oceano, é indiscutivelmente menor do que o do restante dos ODS. Até 2019, o financiamento deste ODS representava apenas 0,01% de todo o montante dedicado aos ODS em geral. Cálculos do Ocean Economist apontam que, dentre as ações do Green Climate Fund (GCF) e do Global Environmental Facility (GEF), o mar representou menos de 3% do apoio financeiro total (menos de 2% do GCF e 0,7% do GEF, respectivamente). Nas ações filantrópicas gerais desde 2016, o montante representado pelas águas salgadas fica em torno de assustadores 0,56%. Estes valores tornam-se ainda mais absurdos quando se sabe que o total necessário para complementar o que já se tem para os requisitos de conservação do oceano (US$ 149 bilhões) representa apenas 3% dos estimados US$ 5 trilhões gastos globalmente em subsídios a combustíveis fósseis a cada ano.

 

A nítida incompatibilidade entre o que o oceano agrega de valor à vida humana e o que retribuímos financeiramente é preocupante em vários níveis. Além da preservação ambiental, o subfinanciamento oceânico também é uma forma de negligência para com as sociedades que dependem diretamente do mar. O que investimos no oceano – para conservar os ecossistemas naturais, combater a poluição marinha, combater as mudanças climáticas oceânicas ou desenvolver uma economia azul sustentável – deve refletir a imensa riqueza que acumulamos com ele.

 

 

Expectativas quanto ao financiamento oceânico

 

Ainda que os valores investidos no oceano encontrem-se baixos, há movimentos atuais que permitem certo otimismo quanto ao futuro desta área. De 2010 a 2020, o montante de financiamento filantrópico para a conservação marinha dobrou, saltando de US$ 520 milhões para US$ 1,2 bilhões. O número de financiadores marinhos também triplicou na última década (de 486 para cerca de 1.600). Há, ainda, um banco de dados online desenvolvido pela Secretaria da Commonwealth (Comunidade das Nações), que direciona seus países membros para mais de US$ 170 milhões de financiamento internacional disponível para projetos relacionados ao oceano.

 

Muitos têm sido os movimentos em prol da facilitação do investimento no combate às mudanças climáticas por meio da preservação do oceano. A Commonwealth, por exemplo, tem, também, duas iniciativas emblemáticas: a Commonwealth Blue Charter, um acordo de 54 países para cooperar na ação oceânica, e o Commonwealth Climate Finance Access Hub, um programa que emprega consultores especializados de longo prazo para apoiar os países no acesso ao financiamento climático. Os países membros também levantaram a necessidade de um Fundo de Ação da Carta Azul para incubar e acelerar soluções oceânicas domésticas, a serem consideradas na próxima reunião de Chefes de Governo da Commonwealth em Kigali, Ruanda, em junho.

 

 

Para mudar a maré

 

Incentivar o envolvimento econômico de todos os setores é a única forma de superar, de fato, a crise. O apoio do governo, por exemplo, pode vir em forma de redução dos riscos dos investimentos oceânicos e de integração da Economia Azul nas políticas nacionais. Os parceiros de desenvolvimento podem usar regras mais justas em torno do financiamento do desenvolvimento internacional e integrar os requisitos de sustentabilidade aos serviços e investimentos financeiros.

 

O setor privado, por sua vez, pode partir da cooperação com o meio científico/acadêmico na formação de bancos de dados oceânicos acessíveis, bem como trabalhar com os governos em prol da construção da infraestrutura verde. No mercado financeiro, o fornecimento de novas alternativas multilaterais, como títulos azuis, conversão de dívida, financiamento misto e parcerias público-privadas, podem ser o impulso necessário para que o desenvolvimento sustentável se torne prioridade.

 

Muito se pode fazer – o que nos resta é continuar a pressionar, cada vez mais, governos e iniciativas privadas a abandonar a zona de conforto e tirar do papel as mudanças necessárias para que o oceano possa voltar a estar para peixe mais uma vez.

 

 

Fonte: Ocean Economist

 

 

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