Artigo explica porque eventos como o “Blob” serão mais comuns no oceano

 

Um artigo postado na Nature em dezembro de 2021 explica porque eventos de condições extremas no oceano como o “Blob” no Pacífico podem tornar-se mais frequentes. O Blob foi uma grande massa de água relativamente quente que dominou o Pacífico Norte. As temperaturas recordes marcaram a maior onda de calor marinha já registrada.

 

Com o aquecimento global, ondas de calor marinhas como o Blob provavelmente se tornarão cada vez mais intensas, frequentes e duradouras. Em meio aos últimos acontecimentos de climas extremos em terra, como as enchentes mortais na Europa, na China e na África Ocidental, certamente essa notícia não é de tamanha surpresa para quem está lendo.

 

No entanto, o artigo alerta, ainda, para a grande possibilidade de “eventos extremos compostos”. Assim como com o Blob, tais ocasiões terão dois ou mais tipos de eventos extremos acontecendo simultaneamente.

 

 

A grande “mancha” do Pacífico

 

Em 2015-16, a superfície do Pacífico Tropical viu recordes de temperatura devido ao forte El Niño que acometeu a região à época, o que gerou a morte e branqueamento dos recifes de corais locais. Ao mesmo tempo, o Blob dominou o Pacífico Norte, estendendo-se, em seu auge, do Alaska até a Baixa Califórnia.

 

As consequências foram desastrosas para os ecossistemas marinhos. Peixes e os outros organismos foram obrigados a migrar em busca de águas mais frescas. A queda da produção primária e a floração prolongada de algas nocivas trouxeram prejuízos para a pesca de mariscos e caranguejos, o que, numa reação em cadeia, gerou a morte de diversas focas e leões e aves marinhas. Muitas populações animais marinhas ainda não se recuperaram por completo das consequências trazidas por esse evento.

 

Por sua dimensão, o Blob também dominou todas as manchetes da época. A National Geographic o descreveu como “A mancha (blob) que cozinhou o Pacífico”.

 

 

Eventos extremos compostos

 

“Evento composto” é o nome dado a quando dois ou mais tipos de eventos extremos acontecem ao mesmo tempo – seja em terra ou no mar. Estes têm sido responsáveis por gerar ainda mais estresse para os já fragilizados ecossistemas marinhos.

 

A pesquisa do artigo se propôs a analisar não apenas o calor extremo que caracterizou o Blob, mas também se houveram, em adição, anormalidades nos níveis de oxigênio e de acidez nas águas marinhas.

 

O gráfico abaixo mostra uma linha temporal de quando o Blob ocorreu. A onda de calor marinha (evento único) é representada em laranja claro. Já o laranja escuro e o roxo demarcam um evento composto duplo (com dois tipos de eventos extremos) envolvendo uma onda de calor e um dos seguintes tipos de eventos: a) uma baixa dos níveis de oxigênio ou b) uma queda no pH das águas marinhas.

 

O sombreado cinza mostra que, por alguns meses em 2015, a onda de calor coincidiu com as baixas de oxigênio e de acidez. Ou seja, ao menos parte do Blob foi um evento extremo composto triplo (com três tipos de eventos).

 

As áreas acinzentadas no mapa, por sua vez, expressam a dimensão e profundidade do evento. Quanto mais escuro o cinza, mais profunda foi a penetração da onda de calor no Pacífico Norte. Com isso, não é incoerente afirmar que os efeitos do Blob foram potencialmente amplificados pelos extremos de acidez e oxigenação das águas marinhas.

 

 

Ainda mais extremos nos aguardam no futuro

 

Apesar de conterem hotspots, eventos extremos no oceano são fenômenos de impactos globais. Dessa forma, a pesquisa do artigo também buscou estudar esses eventos a partir de um modelo global de análise dos extremos em temperatura, acidez e oxigenação, o que os permitiu colocar o Blob numa escala internacional.

 

Os resultados mostram que, do período pré-industrial até o presente, a frequência das ondas de calor marinhas, grandes quedas nos níveis de oxigênio e extremos da acidez das águas do mar aumentaram em 10, 5 e 100 vezes, respectivamente. No caso da acidificação, esse aumento significa, essencialmente, uma presença permanente de anomalias no pH do mar.

 

Esses números são consequências diretas do aquecimento, desoxigenação e acidificação do oceano em geral – o que, por sua vez, também são resultados, principalmente, das emissões de CO2 na atmosfera. Neste contexto, o artigo afirma, com absoluta confiança, que o aumento de eventos extremos no oceano são causados, sobretudo, por atividades antropológicas.

 

Enquanto os níveis de CO2 na atmosfera e o aquecimento do globo continuarem a crescer, portanto, é esperado que tais anomalias sigam a mesma crescente na taxa de frequência – e que aconteçam simultaneamente, o que caracteriza os eventos compostos.

 

No mais, o artigo aponta algumas problemáticas que rodeiam a procura por soluções ou formas de minimizar os impactos dos eventos compostos. São eles:

 

  • O impasse do critério para classificar condições anormais como extremas – seja um limiar relativo ou absoluto, os critérios precisam ser selecionados com um impacto específico em mente;
  • A limitação da observação direta de condições extremas abaixo da superfície do mar – por sorte, as tecnologias para tal estão evoluindo rapidamente;
  • O conhecimento limitado a respeito do quanto eventos extremos afetam os organismos e ecossistemas marinhos – sabe-se pouquíssimo, sobretudo, sobre os impactos dos eventos compostos duplos e triplos.

 

Com tudo isso, o artigo determina a necessidade de estudos mais aprofundados sobre o tema, a fim de possibilitar a determinação de estratégias para lidar com as consequências. Fechar áreas de pesca temporariamente para reduzir a quantidade, por exemplo, é uma forma de evitar que mais fatores estressantes sejam adicionados aos já fragilizados ecossistemas marinhos.

 

Este esforço torna-se ainda mais relevante quando, em análise dos fatores expostos aqui, percebe-se que as condições que hoje conhecemos como extremas provavelmente serão o normal em um futuro não tão distante.

 

Fonte: Carbon Brief

 

 

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