Sugestão de documentário: Seaspiracy – Mar Vermelho

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Publicado em 06/10/2021. Última atualização: 06/10/2021.

Escrito por Samira Scoton e Thauan Santos

 

Foto por Netflix

 

 

Cuidado, essa matéria contém spoiler.

 

 

A sugestão de documentário desta edição é o Seaspiracy: Mar Vermelho, dirigido pelo inglês Ali Tabrizi e lançado em plataformas de streaming em 2021. Com aproximadamente 1h30min de duração, tem cenas e depoimentos que podem ser chocantes. Tabrizi se diz um apaixonado pelo oceano desde criança e, com o passar do tempo, passou a diminuir o consumo de plástico e a participar de eventos de limpeza de praias.

 

O documentário aborda temas como a matança de golfinhos, a pesca predatória de atum e de tubarão para consumo de barbatanas, a grande ilha de plástico do pacífico, a escravidão em mar – nas embarcações de pesca -, a produção por meio de aquicultura (que ele chama de fazendas de peixes) e a matança de baleias. Em meio a isso, questiona o termo sustentabilidade, mas afirma que ainda há esperança porque os ecossistemas marinhos se recuperam rapidamente.

 

A primeira parada de Tabrizi é na ilha japonesa de Taiji, onde mostra a matança de golfinhos, a pesca predatória de atum e de tubarão. Posteriormente, o diretor entrevista ativistas do navio da Sea Shepherd, que afirmam que a matança de golfinhos, na costa francesa, pela indústria pesqueira é 10 vezes maior do que na ilha japonesa. Salienta-se, entretanto, que se observou que o tempo que foi dispensado para falar sobre as práticas francesas é inferior ao utilizado para as práticas japonesas.

 

Finda essa primeira parte, o autor parte para o tema da ilha de plástico do pacífico, em que afirma que aproximadamente 50% do plástico encontrado é de rede de pesca. Outra crítica do trabalho em questão é em relação aos selos de produção sustentável. A partir da entrevista com pessoas das entidades que promovem os selos, Tabrizi afirma que tais selos não são tão confiáveis. Isso porque indústrias relacionadas direta ou indiretamente à pesca investem nesses selos e, também, devido à fata de uma definição consolidada sobre o termo “sustentável”.

 

Aborda-se, de forma discreta, o tema da indústria do petróleo no Golfo do México, afirmando, por meio de escassos dados, que a indústria pesqueira é mais devastadora para a biodiversidade do que a indústria de petróleo. Observa-se, nesse ponto do documentário, uma análise bastante superficial, visto que apenas se considera um acidente de derramamento de óleo, não se analisando os efeitos indiretos, como a contribuição dos combustíveis fósseis para as mudanças climáticas – tema que também não é mencionado.

 

A produção de pescado por aquicultura também é motivo de crítica do documentário. Chamadas de “fazendas de peixes”, o diretor visita um local, mostrando cenas de peixes doentes, mortos e mencionando a questão do forte odor. Aparentemente, a proposta era impactar o expectador com as imagens, de apenas uma fazenda que foi mostrada, não se preocupando em visitar áreas produtivas que cumprem com os protocolos de produção.

 

Outro tema abordado no documentário é a escravidão em embarcações pesqueiras da Tailândia. Por meio de entrevistas com pessoas que tiveram experiências nessas embarcações, afirma-se que os trabalhadores vivem em regimes análogos à escravidão e com suas vidas ameaçadas em mar. A questão da fome também é mencionada, afirmando que os estoques de pescado diminuíram e que pescadores da região da Somália precisam navegar em suas pequenas embarcações cada vez mais longe da costa para conseguir o sustento.

 

A última parada é uma visita às Ilhas Faroé, em que se mostra a caça de baleias, em um ritual cultural em que as baleias são caçadas para alimentação da população, também exibindo cenas de impacto. Em entrevista com um caçador local, é mencionado que uma baleia equivale a dois mil frangos, logo, se a questão é a vida dos animais, seria mais “justo” tirar uma vida do que duas mil vidas.

 

No início do documentário, entende-se que serão apresentados diversos temas que afetam a saúde e a sustentabilidade do oceano, tais como as mudanças climáticas, a poluição e a falta de dados em relação ao oceano, entretanto, o autor foca majoritariamente na indústria da pesca. Cabe destacar, ainda, que o tempo desprendido para falar de países asiáticos e latino-americano é superior ao tempo que se dispensou para falar de países europeus.

 

O documentário é encerrado com o apelo para as pessoas deixarem de comer peixe. Uma afirmação bastante simplória para alguém que diz, logo no início, que quer salvar o oceano. Não se analisou os impactos dessa afirmação, por exemplo, sobre a comunidade de pescadores artesanais ou de outros povos tradicionais que têm a pesca como sustento. A pesca pode ser uma fonte de danos para o oceano, mas, com certeza, não é a única.

 

Buscar entender a procedência do alimento, a forma de produção e priorizar o consumo de alimentos locais pode ser uma forma de contribuir com a saúde do oceano. Exigir a produção de dados relacionados ao oceano, além de uma metodologia consolidada, seria mais eficiente do que dizer para as pessoas não comerem peixe, visto que essa sugestão gera outro problema: a necessidade de outra fonte de alimento, que também causaria danos ao meio ambiente, pois qualquer intervenção humana os causa. Sendo assim, com apelo de cenas fortes e frases de efeito, o documentário evidencia um problema relacionado ao oceano, no entanto deixa de discutir temas centrais relacionados às ameaças deste ambiente para além da própria pesca.

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