Entrevista de Thauan Santos a Charles Colgan

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Publicado em 22/09/2021. Última atualização: 22/09/2021.

Confira a seguir a entrevista feita pelo coordenador do GEM, Thauan Santos (TS), a um dos nomes de referência em Economia do Mar dos Estados Unidos, Charles Colgan (CC):

 

Imagem de Mohamed Aly por Pixabay

 

 

 

TS: Por que é importante conceitualizar, medir e monitorizar o papel dos mares, oceano e águas interiores no desenvolvimento econômico?

 

CC: Programas efetivos de desenvolvimento econômico são fundamentados na compreensão dos fatores e tendências que afetam as mudanças econômicas, portanto a compreensão das condições econômicas e ambientais do oceano é fundamental para qualquer desenvolvimento efetivo relacionado ao oceano.  

 

Os programas de desenvolvimento econômico também devem ter, no mínimo, metas ou expectativas de resultados definidos de modo geral. O desenvolvimento de dados apropriados é essencial para monitorar o progresso em direção ou fora das metas, identificando fatores que trabalham com ou contra a direção da intenção política.

 

Em muitos aspectos, a tendência a questionar a necessidade de compreender e medir as dimensões ecológica, ambiental, econômica e social do oceano é bastante estranha/diferente. Tais perguntas não são feitas a outras indústrias baseadas em recursos naturais, tais como agricultura ou produtos florestais. Nessas indústrias, campos bem estabelecidos de pesquisa e estatísticas governamentais já existem há muitos anos. É natural perguntar sobre o rendimento das florestas ou terras agrícolas, manter os dados monitorando a saúde ecológica da terra e águas associadas, e fazer políticas baseadas nesses sistemas de informação. O oceano é o único grande recurso natural que carece de tais informações coletadas regularmente, e o único que as pessoas ficam surpresas quando a necessidade de tais informações é apontada.

 

O foco no desenvolvimento de informações econômicas relacionadas ao oceano tem sido um importante motor no surgimento de esforços internacionais para padronizar o sistema contábil relacionado ao governo, incorporando tanto medidas econômicas padrão, como a renda nacional, quanto às abordagens emergentes dos valores dos serviços ecossistêmicos. A Global Ocean Accounting Partnership fornece recursos e orientação para ajudar os países que desejam reunir os dados econômicos e ambientais necessários.

 

 

TS: Dado o contexto global da pandemia do novo coronavírus (COVID-19), como os mares e o oceano podem colaborar com a recuperação econômica?

 

CC: É evidente que a pandemia tem perturbado a economia de maneira significativa. Algumas dessas perturbações serão transitórias, outras mais duradouras. Os efeitos transitórios estão principalmente no emprego e nas taxas de crescimento econômico afetadas por problemas nos mercados de trabalho, distribuição e bens intermediários. A medida em que esses efeitos (maior desemprego, crescimento reduzido do PIB etc.) permanecerão depende das condições econômicas nacionais e regionais, da medida em que a pandemia cresceu como uma grande ameaça à saúde pública, e das respostas políticas tanto para as questões econômicas quanto de saúde.

 

A atividade econômica relacionada ao oceano seguirá tendências maiores tanto para baixo como para cima. Alguns setores, como o transporte marítimo, estão enfrentando problemas globais por causa dos problemas nas cadeias de abastecimento globais. Estes podem levar algum tempo para serem totalmente resolvidos, provavelmente não antes da segunda metade de 2022, na melhor das hipóteses. O turismo e a recreação também têm sido maciçamente afetados pela queda global nas viagens relacionadas ao controle da pandemia. Durante os próximos 1-2 anos, o COVID-19 passará de pandêmica para endêmica, à medida que a vacinação reduz gradualmente a exposição. Contudo, como uma doença endêmica, será muito parecida com outras doenças endêmicas; continuará presente a um nível baixo com surtos periódicos da doença em locais específicos. Há pouca esperança de um retorno robusto às viagens de férias pré-pandêmicas, particularmente às viagens de férias internacionais, até que a pandemia seja vista como estando sob controle.   

 

A longo prazo, a rápida mudança para a conduta online nos setores público e privado e a contínua evolução das regras organizacionais e tecnológicas deste novo jogo significam que muito do que foi feito no passado será feito de forma diferente no futuro. Nas cidades costeiras, os padrões de deslocamento pendular que tinham favorecido locais próximos à costa para emprego e locais interiores para residências (exceto na parte superior do mercado imobiliário), podem ser alterados com menos deslocamento pendular, menos viagens e serviços presenciais, tornando-se mais locais. Estas mudanças nos padrões de uso do solo urbano terão efeitos profundos nas regiões costeiras.

 

 

TS: Como você avalia a relevância da medição da economia azul para a economia dos Estados Unidos? Em resumo, que conceitos existem nos Estados Unidos e quais são os atores responsáveis pelos dados?

 

CC: O governo dos EUA começou a pesquisar o papel do oceano na economia nacional em 1974. Os trabalhos periódicos de pesquisa cobriram a temática até o início do Programa Nacional de Economia do Oceano (National Ocean Economics Program – NOEP), em 2001, com o objetivo de criar uma medição temporal e espacialmente consistente da economia do oceano para os EUA. Estes dados ficaram disponíveis no formato de protótipos em 2001 e se tornaram uma publicação oficial do Governo Federal em 2007, como a série de dados Economics National Ocean Watch (ENOW). Desde então, tem sido atualizado regularmente. Os dados desta série incluem estabelecimentos, emprego, salários pagos e valor agregado bruto (VAB).

 

A partir de 2018, o governo dos Estados Unidos começou a criar uma conta satélite oceânica dentro das contas nacionais de renda. Esta conta satélite nacional de economia marítima foi lançada em 2020 e refinada em 2021. Ela fornece detalhes industriais consideravelmente maiores sobre a economia oceânica dos EUA do que a série de dados ENOW, mas somente em nível nacional. A ENOW continua como a referência em dados de economia oceânica a nível estadual e local (condado). A MESA contém dados sobre produção bruta (PIB), valor agregado bruto (VAB), salários e emprego.

 

Os Estados Unidos estão atualmente pesquisando se devem estender sua conta nacional baseada na renda oceânica para incluir uma conta de serviços ambientais de acordo com os princípios da Parceria Global de Contas Oceânicas (Global Ocean Accounts Partnership – GOAP) e do Sistema de Contas Ambientais e Econômicas da ONU (United Nations System of Environmental-Economic Accounting – UN SEEA). Embora haja um interesse substancial nessas contas, nenhum compromisso de recursos foi feito para criá-las.

 

A organização líder para a criação da Conta Satélite de Economia Marinha é o Escritório de Análise Econômica (United States Bureau of Economic Analysis – U.S. BEA). A Administraçã0o Nacional Oceânica e Atmosférica (National Oceanic and Atmospheric Administration – NOAA) é responsável pelos dados da ENOA, em cooperação com o U.S. Bureau of Labor Statistics (BLS) e o U.S. Census Bureau (USCB). A NOAA está liderando as discussões sobre uma conta ambiental.

 

 

TS: Com base na experiência americana e internacional, quais setores você considera essenciais para serem incluídos na proposta brasileira para o conceito de economia do mar? Quais setores podem ser considerados como “tradicionais” e “de fronteira”?

 

CC: Adicionalmente a essa entrevista, segue um documento de 2020 que faz um levantamento das definições da economia oceânica em vários países e das contas de organizações internacionais como a OCDE. O documento fornece um bom guia sobre as indústrias e atividades que estão sendo incluídas nas contas dos oceanos. As “indústrias centrais/principais” podem ser facilmente identificadas pelo número de países que as incluem.

 

Uma nota sobre as indústrias “de fronteira”. Uma parte importante do esforço dos EUA para criar uma Conta Satélite de Economia Marinha (Marine Economy Satellite Account) foi incluir indústrias de fronteira como a biotecnologia, energia renovável baseada nos oceanos e tecnologias de observação dos oceanos. Após extensa investigação, foi determinado que estas indústrias são, de fato, setores oceânicos críticos no futuro, mas que a medição de sua produção econômica em seu estágio atual de desenvolvimento era muito difícil. Simplificando, a maioria desses setores estava abaixo dos limites detectáveis na economia dos EUA de US$ 21 trilhões. Foi tomada a decisão de criar um estudo especial dessas indústrias e produtos baseados em inovação e de atualizar esse estudo periodicamente até que uma indústria se tornasse suficientemente grande para definir e incluir nas contas nacionais dos oceanos.

 

  • Tradução: equipe GEM

 

 

 

Sobre o entrevistado:

 

Charles Colgan é Diretor de Pesquisa do Center for the Blue Economy (CBE), servindo como editor chefe do Journal of Ocean and Coastal Economics (JOCE). Ele também trabalha como adjunto do corpo docente do International Environmental Policy Studies Program. Suas experiências anteriores incluem atuação como Professor de Políticas Públicas e Administração na Edmund S. Muskie School of Public Service da University of Southern Maine e como consultor para a National Ocean Economics Program (NOEP) por mais de 14 anos.

 

 

 


 

 

Entrevista original

 

 

TS: Why is it important to conceptualize, measure and monitor the role of the seas, ocean and inland waters in economic development?

 

CC: Effective economic development programs are grounded in an understanding of the factors and trends affecting economic change, so understanding the economic and environmental conditions of the ocean is foundational to any effective ocean-related development.  

 

Economic development programs should also have at least generally defined targets or expectations of outcomes. Developing appropriate data is essential to monitoring progress towards or away from goals, identifying factors working with or against the direction of policy intent.

 

In many ways the tendency to question the need to understand and measure the ecological, environmental, economic, and social dimensions of the ocean is very odd. Such questions are not asked of other natural resource-based industries such as agriculture or forest products. In those industries, well established fields of research and government statistics have existed for many years. It is natural to ask about yield from forest or farmland, to keep data monitoring the ecological health of the land and associated waters, and to make policy based on these information systems. The ocean is the only major natural resource which has lacked such information collected on a regular basis, and the only one where people are surprised when the need for such information is pointed out.

 

The focus on development of ocean related economic information has been an important driver in the emergence of international efforts to standardize government related accounting system, incorporating both standard economic measures such as national income, and the emerging approaches to ecosystem service values.The Global Ocean Accounting Partnership (www.goap.org) provides resources and guidance to help countries wishing to assemble the needed economic and environmental data.

 

 

TS: Given the global context of the new coronavirus pandemic (COVID-19), how can seas and oceans address economic recovery?

 

CC: It is clear that the pandemic has disrupted the economy in significant ways. Some of these will be transitory, others more long lasting. The transitory effects are primarily in employment and economic growth rates affected by problems in labor, distribution, and intermediate goods markets. The extent to which these effects (higher unemployment, reduced GDP growth, etc.) will remain depends on national and regional economic conditions, the extent to which the pandemic has grown as a major public health threat, and policy responses to both the economic and health issues.  

 

Ocean-related economic activity will follow larger trends both down and back up. Some sectors, such as marine transport, are seeing global problems because of the issues in global supply chains. These may take some time to fully sort out, probably not until the second half of 2022 at the earliest. Tourism & recreation has also been massively affected by the global fall in travel related to pandemic control. Over the next 1-2 years, Covid-19 will shift from being a pandemic to endemic as vaccination gradually reduces exposure. But as an endemic disease it will be much like other endemic diseases; it will continue to be present at a low level with periodic surges of the disease in specific places. There is little hope for a robust return to pre-pandemic vacation travel, particularly international vacation travel, until the pandemic is seen as being under control.   

 

Longer term, the rapid shift to online conduct of affairs in the public and private sectors and the continued evolution of the organizational and technological rules of this new game mean that a lot of what had been done in the past will be done differently in the future. In coastal cities, commuting patterns which had favored near-shore locations for employment and inland locations for residences (except at the top end of the real estate market), may be altered with less commuting, less travel, and in-person services becoming more local. These shifts in urban land use patterns will have profound effects on coastal regions.

 

 

TS: How do you assess the relevance of measuring the blue economy for the U.S. economy? In short, what concepts exist in the U.S. and which actors are responsible for the data?

 

CC: The U.S. government began investigating the role of the ocean in the national economy in 1974. Periodic research papers covered the topic until the National Ocean Economics Program began in 2001 with the goal of creating a temporally and spatially consistent measurement of the ocean economy for the U.S. This data became available in prototype format in 2001 and became an official publication of the Federal Government in 2007 as the Economics National Ocean Watch (ENOW) data series. It has been updated regularly ever since. Data in this series includes establishments, employment, wages paid, and gross value added.

 

Beginning in 2018, the U.S. government began to create an ocean satellite account within the national income accounts. This national Marine Economy Satellite Account was released in 2020 and refined in 2021. It provides considerably greater industrial detail on the ocean economy of the U.S. than the ENOW data series, but only at the national level. ENOW continues as the benchmark ocean economy data at the state and local (county) level. The MESA contains data on gross output, gross value added, labor compensation, and employment.

 

The U.S. is currently investigating whether to extend its national income-based ocean account to include an ecosystem service account in accordance with the principles of the Global Ocean Accounts Partnership and U.N. System of Environmental and Economic Accounts. While there is substantial interest in these accounts, no commitments of resources have been made towards creating them.  

 

The lead organization for the creation of the Marine Economy Satellite Account is the Bureau of Economic Analysis. The National Oceanic and Atmospheric Administration is responsible for the ENOA data, in cooperation with the Bureau of Labor Statistics and Bureau of the Census. NOAA is leading the discussions on an environmental account.

 

 

TS: Based on the U.S. and international experience, which sectors do you believe are essential to be included in the Brazilian proposal for the concept of the economy of the sea? Which sectors can be considered as “traditional” and “frontier”?

 

CC: Accompanying this document is a paper from 2020 which surveys the definitions of ocean economy in a number of countries and the accounts of international organizations such as the OECD. The paper provides a good guide the industries and activities being included in ocean accounts. The “core industries” can easily be identified by the number of countries that include them.

 

A note on “frontier” industries. A major part of the U.S. effort to create a Marine Economy Satellite Account was to include frontier industries such as biotechnology, ocean-based renewable energy, and ocean observing technologies. After extensive investigation it was determined that these industries are indeed likely to be critical ocean sectors in the future, but that the measurement of their economic output at their current stage of development was too difficult. Simply put, most of these industries were below detectable limits in the $21 trillion U.S. economy. A decision was made to create a special study of these innovation-based industries and products and to update that study periodically until such time as an industry became large enough to define and include within the national ocean accounts.

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