A desinformação e seu impacto econômico: o caso da “doença da urina preta”

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Publicado em 05/10/2021. Última atualização: 05/10/2021.

Escrito por Marcos Ferreira Brabo e Samira Scoton

 

Foto por Marcos Ferreira Brabo

 

 

Recentemente, casos suspeitos da Síndrome de Haff, popularmente conhecida como “doença da urina preta”, foram identificados e amplamente veiculados pela mídia dos estados da Bahia, Alagoas, Paraíba, Pernambuco, Ceará, Amazonas e Pará, chamando a atenção de toda população brasileira. Esta enfermidade está associada ao consumo de pescado, tem causa desconhecida e promoveu o levantamento de várias hipóteses por especialistas e leigos, gerando um “surto” de desinformação.

 

A popularização da internet e sua velocidade de difusão de informações pode originar e/ou acentuar impactos econômicos, sociais e ambientais, visto que, por meio das redes sociais e de aplicativos de mensagens instantâneas, em poucos minutos uma notícia equivocada pode chegar aos celulares e computadores de milhões de pessoas, com distintos valores, vivências, crenças, ideologias e níveis de escolaridade, promovendo distintas interpretações e posturas.

 

A grande maioria da população não se preocupa em consultar a fonte da informação, a credibilidade do site que a está veiculando, da pessoa que aparece emitindo uma opinião em um vídeo ou mesmo do autor de um texto, muitas vezes sem assinatura. Porém, ainda assim, replicam o que recebem, sem mensurar a sua consequência. Quando isso é somado a uma parte da imprensa que se importa exclusivamente em vender notícias, independente do conteúdo delas, o alcance aumenta e as proporções do impacto também.

 

No caso dos conteúdos veiculados sobre a doença da urina preta, alguns Estados sofreram uma drástica diminuição nas vendas de pescado, o que ocasionou um severo impacto nas cadeias produtivas da pesca e da aquicultura. Vídeos com peixes parasitados, feitos por pessoas sem conhecimento acerca do assunto têm sido os principais responsáveis por desinformar a população e criar um alarde sobre sintomas que são compartilhados por diversas enfermidades, com distintas motivações.

 

Os primeiros a sentir os efeitos econômicos negativos foram os donos de restaurantes especializados em pescado e os comerciantes varejistas, em especial os autônomos e proprietários de peixarias, mas pescadores artesanais e piscicultores também foram afetados por efeito dominó. Nos Estados do Amazonas e do Pará, alguns municípios proibiram a comercialização de determinadas espécies e forneceram auxílio financeiro emergencial de dois meses a peixeiros, tamanho foi o caos criado.

 

A arabaiana ou olho de boi Seriola spp., o badejo Mycteroperca spp., o tambaqui Colossoma macropomum, a pirapitinga Piaractus brachypomus e o pacu Mylossoma duriventre foram as espécies citadas em publicações científicas que tiveram seus nomes ligados aos casos suspeitos de doença da urina preta no Brasil. A hipótese mais provável é de que uma toxina seja responsável pelos casos em questão, possivelmente relacionada a alimentação dos peixes no ambiente natural.

 

Apesar da doença não apresentar um tratamento específico, são raros os casos que evoluem a óbito. As notificações indicam que há sazonalidade nos surtos, que devem receber uma maior atenção por parte do poder público, inclusive na realização de estudos científicos que venham a elucidar a sociedade e balizar medidas preventivas por parte dos órgãos competentes. Informar a população de forma correta a respeito da doença é a alternativa mais viável para evitar danos econômicos, além de qualquer convulsão social.

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